O problema

A polarização transbordou da política para a ‘vida real’

Vivemos hoje em um quadro de crescente polarização e tribalismo ideológico, e isso afeta esferas da nossa vida que vão muito além da política. Não só em Brasília, mas também escolas, igrejas, universidades, empresas, famílias e grupos de amigos – em todos esses ambientes encontramos divergências políticas alimentando animosidades, ressentimentos, ansiedades e frustrações. Isso implica desafios não apenas na manutenção de uma sociedade livre e democrática, mas em várias frentes do nosso desenvolvimento pessoal e coletivo.

A polarização nos enfraquece – mesmo quando estamos ‘do lado certo’

Muito embora possamos considerar justificada a defesa intransigente dos nossos valores, a polarização cobra o seu preço: laços de afeto são rompidos, redes colaborativas são desfeitas, discussões se tornam tóxicas e improdutivas. Quando enxergamos a discordância como sinal de deficiência moral e/ou intelectual, frequentemente desistimos de criar os elos necessários para a comunicação efetiva. Ao invés da compreensão mútua e da argumentação racional, recorremos à intimidação social, ao exibicionismo moral ou a outras formas de sinalizar que fazemos (ou não fazemos) parte de um determinado grupo. Assim nos tornamos defensores menos competentes das nossas próprias ideias, arriscamos afastar mais ainda nossos interlocutores e preterimos as práticas mais conducentes à discordância construtiva. “Com esse tipo de pessoa não dá para discutir” torna-se, enfim, uma profecia auto-realizável.

A polarização sufoca o intelecto

Quando ideias deixam de ser discutidas por seus méritos e passam a ser vistas como marcadores de pertencimento grupal, nossos mecanismos de deliberação coletiva inevitavelmente se enfraquecem. Muitos se tornam relutantes em se expressar por medo de serem rotulados ou excluídos. Acusações se proliferam contra aqueles que exploram ideias associadas a certos grupos, e perguntas inconvenientes cedo ou tarde se tornam proibidas. Quando a heterodoxia se torna heresia, muitos se veem forçados a escolher entre dois caminhos: ou se enquadrar em um molde ideológico pré-definido, ou se distanciar por completo das discussões importantes do dia. Em ambientes que dependem da criatividade, da livre troca de ideias e do rigor intelectual, isso pode ser fatal.

A polarização nos leva ao autoengano

Os mecanismos psicológicos que levam à polarização e ao tribalismo não são problema deste ou daquele indivíduo ou de um grupo específico de pessoas. Todos nós somos sujeitos a vieses, preconceitos, percepções distorcidas e raciocínios motivados. Gravitamos em torno dos fatos que corrobora nossa visão de mundo, resistimos à nuance quando ela ameaça nossas narrativas favoritas. Nossos juízos são influenciados pela simpatia que cultivamos pelos ‘nossos’, assim como pela antipatia que cultivamos pelos ‘outros’. Essas são tendências humanas universais e nenhum de nós é imune a elas. A polarização, no entanto, nos leva a crer que esses são atributos exclusivos dos nossos oponentes. Ao subestimar nossa propensão ao autoengano, perdemos oportunidades de crescer e aprender e dificilmente adotamos atitudes conducentes ao diálogo e colaboração.

 

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O Projeto Prisma entende que indivíduos, organizações, instituições e comunidades em geral muitas vezes carecem dos recursos adequadas para enfrentar esses desafios, e que isso pode limitar o seu desenvolvimento em várias frentes. Nossa plataforma é voltada para atender a essa crescente demanda. Com ferramentas respaldadas pela experiência e embasadas em pesquisas multidisciplinares, esperamos minimizar os efeitos tóxicos do atual quadro de polarização e tribalismo político, fomentar a discordância construtiva por entre fronteiras ideológicas e criar espaços onde ideias possam ser compartilhadas e discutidas com boa-fé e senso crítico, sem receio de rótulos ou censura.

 

 

Caminhos para a despolarização

Nos ombros de gigantes

Em consonância com a crescente atenção pública que o tema da polarização vem recebendo, inúmeros projetos de pesquisa e estratégias de intervenção já vem sendo desenvolvidas ao redor do mundo para abordar o problema. Aqueles que buscam enfrentá-lo, portanto, não precisam começar do zero: iniciativas de sucesso já existem e ferramentas poderosas já estão disponíveis no campo da despolarização. O Projeto Prisma busca somar força a essas iniciativas, divulgar seu trabalho e disponibilizar seus recursos para um público maior.

Uma abordagem voltada ao desenvolvimento humano

O Projeto Prisma entende que a polarização exige o exercício e desenvolvimento de competências-chave, tais como a humildade intelectual, inteligência socio-emocional, o raciocínio crítico e a capacidade de dialogar por entre conflitos morais. Entendemos que essas competências conduzem a resultados positivos não apenas na construção de uma cultura cívica mais saudável, mas também em diversas frentes do nosso desenvolvimento pessoal, intelectual, psicológico, social e profissional. Entendemos, portanto, que o campo da despolarização tem entre suas maiores virtudes a capacidade de se harmonizar com os objetivos de uma ampla variedade de empreendimentos – sejam escolas, universidades, empresas ou qualquer comunidade voltada para o pleno desenvolvimento humano dos seus integrantes – seja o engajamento cívico-político um dos seus objetivos primários ou não.

Comunidade e colaboração

O Projeto Prisma entende ser imprescindível a formação de redes colaborativas que entendam os perigos da polarização e os benefícios que o campo da despolarização pode oferecer para o nosso florescimento pessoal e coletivo. Buscamos, portanto, firmar parcerias e assegurar a colaboração de agentes sociais diversos, em especial aqueles engajados na esfera educacional e que possam contribuir para propagar as competências da despolarização entre estudantes de todas as idades. Para além disso, esperamos que nossa plataforma possa servir como ponto de encontro para todos aqueles interessados em se engajar de forma colaborativa na construção de uma cultura cívica mais saudável.

Pesquisa e monitoramento

É inútil tentar resolver um problema que não compreendemos. Embora o senso comum já tenha captado muitos dos desafios que a polarização coloca no nosso dia-a-dia, contamos hoje com uma trágica escassez de pesquisas científicas sobre o tema no Brasil. O Projeto Prisma espera contribuir para reverter esse quadro, implementando mecanismos para a coleta de dados e monitoramento empírico das ferramentas que disponibilizamos. Também esperamos manter nossa comunidade em contato com os últimos estudos e discussões especializadas disponíveis sobre os temas relevantes à nossa missão de modo que nosso trabalho esteja sempre, no máximo possível, informado por evidências e pesquisas de ponta.

Paciência e perseverança

Não existe solução fácil para as disfunções da nossa cultura cívica e intelectual. Na verdade, ‘soluções’ para esse tipo de problema facilmente desaguam na utopia. Ao invés de ‘soluções’, o Projeto Prisma busca enfatizar intervenções virtuosas, focadas em contextos locais e que, esperamos, possam vir a acarretar mudanças sistémicas por efeito cumulativo a longo prazo. Entendemos que a polarização e o tribalismo político não irão desaparecer do dia para a noite – e que, possivelmente, nunca desapareçam por completo. Ainda assim, é perfeitamente possível incorporarmos em nossas próprias vidas a mudança que gostaríamos de ver no resto da sociedade. O Projeto Prisma acredita que temos muito a ganhar ao fazer isso, mesmo enquanto essa mudança não chega ao resto da sociedade.