Por que estudar a cultura política do meio acadêmico?

Já mencionei em diversos lugares o contraste gritante que existe entre o número de pesquisas que existe no Brasil e os EUA sobre a cultura política do meio acadêmico. Enquanto lá encontramos dezenas, talvez centenas de artigos científicos tentando mapear o perfil político da comunidade acadêmica, tenho dificuldade em encontrar um único estudo acadêmico sobre essa questão por aqui.

Com certeza há vários motivos para essa escassez de estudos brasileiros. Um deles, sem dúvida, tem a ver com a pouca disponibilidade de recursos para financiar esse tipo de pesquisa. No entanto o principal, a meu ver, tem a ver com o fato de que nossos pesquisadores simplesmente não têm optado por abordar o tema. Isso é estranho se considerarmos o interesse que ele desperta: praticamente todo acadêmico que conheço tem teorias e opiniões sobre o assunto, e fora da universidade debates vigorosos também giram em torno dele. Antes de qualquer coisa, portanto, temos que tentar entender o que torna a cultura política do meio acadêmico um tema tão intratável para pesquisadores acadêmicos.

Na minha experiência levantando esse assunto dentro e fora da universidade, cheguei à seguinte conclusão: esse é um tema que, assim como vários outros, foi politicamente tipificado – o que significa dizer que se você demonstra algum interesse por ele você corre alto risco de ser visto como membro de uma denominação política em particular. De direita, no caso. E se você já passou algum tempo dentro de departamentos de ciências sociais no Brasil, você sabe que esse rótulo é algo que profissionais da área buscam evitar no geral.

Há um motivo para essa tipificação. De fato, se você procurar o que já foi publicado no Brasil sobre a cultura política do meio acadêmico (como não há estudos acadêmicos sobre o assunto estou me referindo aqui principalmente a livros, artigos de jornal, entrevistas e outras mídias), você descobre rapidamente que esse assunto foi praticamente monopolizado pela direita. Por um lado isso é compreensível. A direita é um dos grupos mais sub-representados dentro do meio acadêmico e é natural que ela queira trazer atenção para esse fato. Por outro lado, o fato dela ter politizado o tema acaba afastando muitos pesquisadores pouco afeitos a polêmica.

Em boa parte das apresentações e trabalhos que tenho produzido sobre esse assunto venho tentando deixar claro, no entanto, que o estudo da cultura política do meio acadêmico pode (e deve) ter uma orientação apolítica, voltada estritamente para o avanço da ciência e da qualidade da educação superior. Vou tentar resumir aqui alguns motivos pelos quais eu acho que essa área de estudo deveria interessar pesquisadores independentemente das suas predileções ideológicas. Em particular, busco assinalar como essa área de pesquisa pode apontar caminhos para aprimorar a qualidade da educação superior.

1. Diversidade política e diversidade intelectual

Todos sabemos o quanto o tema da diversidade adquiriu saliência dentro da educação superior nos últimos anos. Além de despertar discussões sobre como incluir e acolher grupos historicamente desfavorecidos no ambiente universitário, o tema também tem despertado discussões sobre como o encontro de perspectivas, valores e experiências diversas contribuiria para um diálogo intelectual mais vigoroso e produtivo dentro da universidade. Nesse quesito, muitos argumentam que diversidade ideológica deveria ser no mínimo tão valorizada quanto diversidade demográfica, dado que ideologia tende a nortear predisposições intelectuais em igual ou maior medida do que atributos de cor, gênero, ou orientação sexual. Esse é um ponto que eu também procuro fazer aqui.

Os efeitos deletérios da homogeneidade ideológica na qualidade da educação superior, tanto no ensino quanto na pesquisa acadêmica, já foram demonstrados por pesquisadores em diversas disciplinas, tais como na sociologia, no direito, na filosofia e na psicologia social. O estudo da cultura política do meio acadêmico se mostra então como meio de efetivamente mapear os diferentes vieses político-ideológicos que influem nas práticas acadêmicas e quais seriam as melhores medidas para nos blindar contra esses vieses.

Naturalmente, pessoas de esquerda muitas vezes exibem resistência a essa proposta pois entendem que combater vieses no meio acadêmico (que, por acaso, é predominantemente progressista) significaria deslegitimar a presença da esquerda na universidade. Isso, no entanto, é enxergar o embate intelectual como um jogo de soma zero. Na verdade, não faz bem a nenhuma corrente política ideológica que ela se isole intelectualmente de teorias conflitantes. O embate intelectual é necessário para exercitar a capacidade argumentativa e para nos tornarmos cientes dos nossos pontos cegos. Quando avançamos uma teoria ou propomos um projeto que não se sujeitou a críticas, corremos o risco de prejudicar justamente as pessoas que pretendemos ajudar. Quando temos acesso às críticas dos nossos opositores, temos a oportunidade de fortalecer nossos pontos de vista e nos tornamos mais hábeis em defendê-los. Muitos alunos reclamam que têm dificuldade em argumentar com liberais e conservadores quando saem da faculdade, e culpam por isso o fato de que não foram apropriadamente expostos a ideologias diferentes em seu tempo na faculdade. O estudo da cultura política do meio acadêmico se apresenta, portanto, como um meio de averiguar se nossos alunos, professores e pesquisadores estão se expondo a desafios intelectuais cruciais para o seu desenvolvimento, especialmente se fizerem parte da maioria ideológica da sua universidade.

2. Polarização

Além dos benefícios intelectuais, há também benefícios cívicos a serem extraídos do estudo da cultura política do meio acadêmico. Aqui novamente podemos traçar um paralelo com a maneira como outras categorias de diversidade se inserem nesse debate. É notório e louvável, por exemplo, o esforço que universidades têm desempenhado para promover entre seus alunos o respeito e a tolerância em relação a diferenças de raça, gênero, classe e orientação sexual. Sob diversos aspectos – e apesar dos avanços ainda por fazer – esses esforços vem se mostrando bem-sucedidos. Estudos mostram que há correlação notável entre o tempo que indivíduos passam na universidade e o respeito e tolerância que eles exibem em relação a essas diferenças.

Em relação à diversidade política, no entanto, a situação não é tão promissora. Além de estudos que sugerem que a animosidade entre oponentes políticos hoje supera a animosidade observada entre diferenças de gênero, raça, religião ou etnicidade, há também estudos que sugerem que a universidade está contribuindo para essa crescente polarização política. Ou seja, ao contrário do que se observa em relação à tolerância racial e de gênero, há correlação entre o tempo que indivíduos passam na universidade e uma redução na tolerância e respeito que eles exibem em relação a oponentes político-ideológicos. Diversos críticos apontam também que a crescente polarização ideológica estaria fomentando tensões crescentes no campus universitário, instigando a intolerância em relação a pontos de vista divergentes e levando ao empobrecimento geral na qualidade do debate acadêmico.

O estudo da cultura política do meio acadêmico surge então como meio de averiguar o quanto o ambiente universitário estaria contribuindo (ou não) para a formação de alunos capazes de incorporar uma atitude empática em relação ao ‘outro’ político e, em última análise, preparados para viver em uma sociedade democrática e ideologicamente plural. Esforços nessa direção contribuiriam não somente para um ambiente intelectual mais estimulante e capaz de levar em consideração uma gama maior de pontos de vista, mas também para um arrefecimento das tensões políticas da sociedade em geral, abrindo novos caminhos para o diálogo entre fronteiras político-ideológicas. Se a universidade se preocupa com a cultura polarizada que observamos na sociedade em geral, ela faria bem em produzir estudos sobre como essa polarização afeta o próprio campus.

3. Alarde e crise de relações públicas

Outro motivo que justifica o estudo da cultura política do meio acadêmico é o fato de que, gostando ou não, o tema já vem angariando bastante atenção pública em torno dele. São inúmeras colunas e matérias de jornal, depoimentos em redes sociais, movimentos sociais, e até projetos políticos que buscam lidar com o tema. Em suma, não é porque um tema é ignorado pela comunidade acadêmica que ele será ignorado pelo resto da sociedade também. Isso significa apenas que o resto da sociedade discutirá o tema sem o auxílio das nossas instituições de pesquisa.

Vale a pena enfatizar esse ponto pois eu vejo muitos acadêmicos profundamente insatisfeitos com a maneira que a cultura política do meio acadêmico é discutida pelo resto da sociedade. A maior parte deles não gosta quando a universidade é descrita como um antro de militantes comunistas, centros de doutrinação ideológica ou coisa parecida. No entanto, por mais caricatas que essas caracterizações possam ser, a insatisfação dos acadêmicos sempre me pareceu um pouco paradoxal. Afinal, o quanto que nossa comunidade acadêmica tem o direito de ficar insatisfeita com o andar de uma discussão que ela mesma escolheu não participar?

É verdade que muitos movimentos aventureiros têm se aproveitado da imagem negativa que a universidade vem angariando por causa dessas discussões, e muitos acadêmicos sentem que lidar com o assunto pode ser uma forma de dar ainda mais ‘munição ao inimigo’. Eu acredito que o oposto é verdade. Se a comunidade acadêmica continuar negligenciando esse tema, ele continuará sendo monopolizado por tais iniciativas. Se, por outro lado, ela lidar abertamente com o assunto e com os desafios que ele apresenta, ela poderá dar uma forte sinalização para o resto da sociedade que ela está disposta a enfrentar esses desafios de forma aberta e honesta. Com estudos sistemáticos e dados confiáveis sobre o assunto, o mais provável é que movimentos mais aventureiros se esvaziem e soluções mais realistas sejam propostas para o problema. Uma coisa pelo menos é certa: enquanto tais estudos não forem produzidos, dificilmente a qualidade do debate irá aumentar.

Os argumentos que coloco acima não partem de mera especulação sobre o que pode acontecer se a cultura política do meio acadêmico começar a receber mais atenção da comunidade científica brasileira. Eles partem de uma história que já aconteceu e vem acontecendo nos EUA na esteira da crescente atenção que o tema tem recebido por lá. Plataformas que reúnem estudos do tipo que estou propondo de fato obtiveram sucesso em atacar cada uma das três frentes que listei. Graças aos esforços da Heterodox Academy, por exemplo, milhares de acadêmicos hoje se sentem mais livres para explorar assuntos controversos através de uma maior diversidade de pontos de vista, muitos estão se dedicando a projetos promissores voltados à despolarização do ambiente universitário e da sociedade em geral, e a imagem da universidade como um ambiente intolerante e insulado está sendo efetivamente combatida. Pesquisadores e instituições de ensino brasileiras que desejarem seguir essa esteira também farão bem em promover estudos desse tipo também.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.