O que as universidades estão fazendo para combater a intolerância ideológica

Por: Pedro Franco
Publicado originalmente na Gazeta do Povo.

No começo do ano, os olhos do mundo se voltaram para uma estranha crise que parece atingir algumas das maiores e mais prestigiosas instituições de ensino superior do mundo. O caso mais notório talvez tenha sido em Harvard, onde a presidente da instituição, Claudine Gay, perdeu o cargo sob acusações de plágio e leniência com o antissemitismo após um atrapalhado depoimento ao congresso americano. As presidentes de Stanford e MIT também estavam lá, e se saíram igualmente mal ao tentar articular o comprometimento das suas instituições com os princípios da tolerância e da liberdade de expressão.

Não pretendo aqui revisitar os detalhes do episódio – ele é apenas o mais recente de um longo drama que vem custando a universidades ao redor do mundo boa parte do prestígio que costumavam ter como nossos principais centros de excelência e inovação intelectual. O caso Claudine Gay apenas aumentou o número já crescente de pessoas que parecem acreditar que a universidade, de alguma forma, perdeu o rumo. Pautas políticas são priorizadas cada vez mais em detrimento da missão de transmitir e produzir conhecimento. O câmpus parece estar à mercê de tribalismos ideológicos que tornam cada vez mais discussões impossíveis de navegar. Cada vez mais, e apesar de toda a ostensiva celebração da “diversidade” no campus, a diversidade de pensamento é vista como, no melhor dos casos, uma inconveniência – no pior, como ameaça. E por mais que acadêmicos se apavorem diante da desconfiança popular em relação ao que se apresenta como “consenso científico”, eles hoje são confrontados pela pergunta: que confiança merece o consenso em um ambiente onde o dissenso é suprimido?

Seja nos EUA ou no Brasil, o diagnóstico geral se aplica: o clima de expressão disfuncional, o tribalismo ideológico e polarização tóxica que hoje contamina a universidade ameaça sua credibilidade, cria um ambiente pouco propício para o florescimento intelectual e promove pouco espaço para um engajamento cívico saudável e razoável.

A boa notícia é que, apesar do choque gerado pelos escândalos mais recentes, o problema não pegou a todos tão desprevenidos assim. Intelectuais públicos, acadêmicos e educadores ao centro, direita e esquerda já vem soando o alarme nessa discussão há alguns anos. Se, por um lado, o problema se torna cada vez mais evidente, vemos também o crescimento de organizações como a Heterodox Academy, que conta hoje com mais de 5.000 membros entre a comunidade acadêmica – incluindo ‘superestrelas’ intelectuais como Jonathan Haidt e Steven Pinker – buscando promover a diversidade de pontos de vista e discordância construtiva na educação superior. Enquanto as universidades da ‘Ivy League’ perdem prestígio, vemos nascer o ambicioso projeto da UATX, uma nova universidade com o propósito expresso de celebrar a liberdade de expressão e combater a cultura do cancelamento.  A própria universidade de Columbia, instituição onde eu estou buscando meu PhD e que ano passado amargou a pior colocação possível em um ranking de liberdade de expressão (esse ano a posição foi ocupada pela própria Harvard), anunciou esse ano uma nova reitora. Angela Olinto, além de ser brasileira nascida em Boston (como eu) e ex-aluna da PUC-Rio (como eu), serviu (muito mais importante) no Comitê de Liberdade de Expressão que desenvolveu em 2014 os ‘Princípios de Chicago’, uma declaração que está rapidamente se tornando referência mundial no planejamento institucional da educação superior. Olinto, assim como cada vez mais educadores ganhando espaço ao redor do mundo, entra com a promessa de resgatar a universidade como um ambiente que prepara seus alunos para o encontro com o contraditório e o diálogo por entre diferenças.

 

Em vista disso e apesar dos pesares, a maré está dando sinais de mudanças: a educação superior e suas melhores mentes já estão mobilizadas em torno do problema. A hora chegou, portanto, de refletirmos o que as nossas universidades no Brasil podem fazer para manter-se atualizadas nessa discussão e implementar os recursos disponíveis para impedir que as disfunções da nossa cultura cívica interfiram no cumprimento do seu propósito educacional.

 

No Brasil, assim como nos EUA, essa discussão sempre nos arrasta para os campos minados das guerras culturais. Nesse campo, rótulos, generalizações e frases de efeito frequentemente tentam se passar por diagnóstico crítico. E apesar do que sabemos por meio da torrente de anedotas que as pessoas usam para formar suas impressões sobre o clima no campus universitário, estudos acadêmicos sistemáticos a respeito são extremamente raros no Brasil. Isso não é apenas sinal de que sabemos muito pouco sobre esses problemas e como lidar com eles, mas também de algo muito mais desanimador: a discussão aqui nem ao menos começou.

Acredito, no entanto, que um pequeno passo para ajudar a quebrar o gelo que cerca esse assunto foi dado esse ano com a publicação de um estudo que realizei por meio do Projeto Prisma em parceria com o Centro Universitário Filadélfia, do Paraná. Hoje, portanto, temos no Brasil pelo menos uma tentativa de diagnosticar empiricamente a polarização e o clima de expressão no campus universitário. O estudo tem suas limitações – em particular o fato de que foi realizado com uma mostra de apenas 357 alunos em uma instituição particular que dificilmente é representativa das universidades Brasil afora. Seja como for, a sua publicação serve ao menos como um convite para que outras universidades adaptem os métodos que usamos e avaliem se algumas das perguntas que fizemos são relevantes ao seu campus também.

 

O questionário que distribuímos aos alunos da amostra continha perguntas como:

 

      O quão confortável ou relutante você se sentiria expressando sua opinião sobre [assunto X] em sala de aula?

      Por que você tem relutância em se expressar sobre esse assunto?

      Com que frequência você é tratado mal ou injustamente no campus por causa [das suas opiniões políticas / da sua cor / do seu gênero / da sua classe social / etc.]?

      Você sente que suas opiniões são minoritárias ou majoritárias no campus?

 

Coletamos também os dados demográficos e denominação política dos participantes para saber se certos grupos de alunos vivenciam esses problemas de maneira diferente. Como falei, o estudo é limitado e devemos tratar com cautela as respostas que oferece. No entanto, os dados sugerem que tensões políticas têm um efeito notável no clima de expressão e nos graus de conflito que os alunos vivenciam no campus. Ressalto aqui três descobertas: 1) Assuntos políticos são os que mais geram relutância entre os alunos, 2) mais do que represálias do professor, alunos sentem receio principalmente de serem rotulados ou excluídos pelos próprios colegas e 3) os alunos relatam sofrer tratamento injusto no campus por causa das suas opiniões políticas com mais frequência do que por qualquer outro motivo.

Vale explorar esse último dado mais a fundo. Sua significância se torna mais evidente quando dividimos a amostra demograficamente. Descobrimos, por exemplo, que mulheres relatam ser maltratadas por causa das suas opiniões políticas com mais frequência do que por causa do seu gênero. Alunos de baixa renda, também, relatam ser maltratados por causa das suas opiniões políticas com mais frequência do que por causa da sua classe social. Alunos LGBTQ+ relatam ser maltratados por causa das suas opiniões políticas com mais frequência do que por causa da sua orientação sexual. Alunos não-brancos relatam ser maltratados por causa das suas opiniões políticas com mais frequência do que por causa da sua cor. Em outras palavras, ideologia política é relatado como o maior motivo por trás do tratamento injusto que os alunos sofrem no campus por praticamente todos os grupos demográficos da amostra.

A importância desse dado, caso for generalizável a outras instituições de ensino, deve saltar aos olhos imediatamente. Todo mundo sabe o quanto universidades ao redor do mundo hoje alardeiam o seu esforço no combate ao preconceito de cor, gênero, orientação sexual e classe social – e não custa ressaltar que enquanto essas formas de preconceito continuarem fazendo parte da vida de seus alunos, universidades de fato têm obrigação de se engajar nesse combate. Mas existe, evidentemente, uma outra forma de preconceito que hoje faz parte da vida dos alunos com frequência e intensidade talvez até maior que essas outras: o preconceito político, que vem gerando conflitos tóxicos, prejudicando o relacionamento entre alunos e professores, coibindo o clima de expressão no campus, alimentando disfunções institucionais e atrapalhando a missão da educação superior. Já está na hora das nossas universidades se engajarem aqui também.

Uma resposta comum ao argumento acima é que o desprezo por uma opinião política simplesmente não é a mesma coisa que desprezo por uma raça, gênero, ou orientação sexual. Afinal, não existem opiniões que realmente merecem desprezo? De fato, ao contrário das outras formas de preconceito mencionadas, o preconceito político é muito mais aceito socialmente – e, devemos admitir, ele às vezes pode até ser justificado. Eu também tenho os meus vieses e preconceitos políticos, assim como todos nós – isso é apenas natural. Mas nada disso significa que não existem maneiras mais produtivas ou destrutivas de eu lidar com os meus vieses e preconceitos. Nada disso significa que a universidade tem o direito, só porque desprezos e afinidades políticas são partes inevitáveis da vida, de simplesmente jogar as mãos para o alto e dar o assunto por encerrado. Isso não resolve absolutamente nada. Admitir que todos temos vieses é, na verdade, mais um motivo para valorizar a universidade como um ambiente para testar nossos vieses sob o escrutínio do intelecto, de treinar nossas mentes e canalizar nossos afetos para caminhos que se harmonizem de maneira mais efetiva com nossos valores. Nenhuma causa verdadeiramente justa tem a perder com mentes afiadas pelo encontro com o contraditório.

Felizmente, a discussão não empacou nesse ponto. Como já apontei acima, o campo da educação superior já está mobilizado e implementando reformas institucionais significativas para tornar a universidade um ambiente mais aberto, onde a divergência é celebrada ao invés de coibida. E da mesma forma que o combate às formas ‘tradicionais’ de preconceito se tornou imperativo em praticamente todas as nossas instituições de ensino superior, a polarização e o clima de expressão tóxico que contaminam o campus também estão se tornando salientes ao ponto de tornar essa pergunta imperativa para qualquer membro da comunidade acadêmica: o que a sua instituição está fazendo a respeito?

 

Veja um resumo mais abrangente do estudo realizado pelo Projeto Prisma aqui.

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