Finalmente saiu – o que diz o primeiro estudo empírico sobre autocensura e polarização na universidade brasileira

Por: Pedro Franco

Pesquisa original: 

Franco, P. D., Luzardo, A., Bailoni, L. F., & Fassula, F. C. (2023). Medindo Autocensura e Polarização na Educação Superior. Educação & Sociedade. https://doi.org/10.1590/ES.272100

 

Sempre que profissionais da educação me perguntam o que fazer sobre o quadro de polarização, autocensura e intolerância ideológica que parece predominar em muitas universidades brasileiras, minha resposta é sempre a mesma: levantar dados. Produzir um diagnóstico confiável, calcado em dados empíricos e metodologias robustas, é o primeiro passo para conscientizar as pessoas sobre o problema, sinalizar a preocupação da universidade em torno dele e, só depois disso, planejar intervenções. 

Com o intuito de ajudar instituições de ensino interessadas em dar esse primeiro passo, o Projeto Prisma produziu um estudo em parceria com o Centro Universitário Filadélfia que acaba de ser publicado na revista Educação & SociedadeO objetivo do estudo foi testar um método para mensurar indicadores de polarização e autocensura no campus universitário que pode ser facilmente replicado em universidades Brasil afora. 

O texto a seguir é apenas um resumo das nossas principais descobertas. Recomendo aos interessados que leiam o artigo em sua versão original e, caso sejam administradores ou pesquisadores acadêmicos, considerem realizar estudos semelhantes em suas próprias instituições. Também apresento e discuto o estudo nesse webinar organizado pela IVEPESP.

 

Um pouco de contexto

Antes de ir aos dados, vale contextualizar um pouco o estudo. Basicamente o que fizemos foi reproduzir um modelo de pesquisa já existente e utilizado pela Heterodox Academy desde 2019 para avaliar o clima de expressão nos campi universitários dos EUA. Trata-se de um questionário aplicado anualmente entre estudantes universitários que pergunta, entre outras questões, o quão confortáveis ou relutantes os respondentes se sentiriam discutindo em sala da aula uma variedade de assuntos sensíveis (política, questões raciais, questões LGBTq+, e assim por diante). O questionário também pergunta quais as consequências que os alunos mais temeriam caso expressassem suas opiniões sobre tais assuntos, além de outras questões relacionadas à sua experiência no campus. Assim como qualquer método de pesquisa, esse questionário tem suas limitações e vale ter em mente o que dizem seus críticos (ver, por exemplo, aqui e aqui). Discutimos algumas dessas limitações no próprio artigo, e me coloco à disposição de qualquer pesquisador que pense em aprimorar essa metodologia nos seus próprios estudos. 

No caso do estudo que realizamos no Brasil, vale também algumas observações sobre a particularidade da nossa amostra. Tivemos 357 respondentes, todos alunos matriculados no Centro Universitário Filadélfia, do Paraná – uma universidade confessional evangélica em um município com forte eleitorado de direita. Sendo assim, não podemos esperar que nossa amostra seja considerada representativa da realidade vivida nos diversos campi universitários Brasil afora. Na verdade, não temos como avaliar precisamente o grau de representatividade ou de não-representatividade da nossa amostra sem dados comparativos de outras universidades – daí importância de realizar estudos parecidos em outras universidades

Seja como for, no caso da instituição onde realizamos o estudo, averiguamos que a proporção político-ideológica entre os alunos é relativamente equilibrada (ver figura abaixo). Tratamos no artigo de outras dimensões dentro das quais tentamos mapear o perfil político dos respondentes e quais as ideologias predominantes no campus. Naturalmente, há muito que não podemos saber sobre essa questão quando perguntamos apenas a ideologia auto-declarada dos respondentes – inclusive isso é uma das limitações que discutimos no artigo. Esperamos que o nosso estudo seja apenas um primeiro passo para fazer um mapeamento mais apurado do perfil ideológico da nossa comunidade acadêmica – um tema sobre o qual acadêmicos brasileiros raramente publicam (discuto a escassez desse tipo de pesquisa aqui).

 

 

Alunos são maltratados por causa de suas opiniões política com mais frequência do que por qualquer outro motivo – incluíndo alunos pertencentes a grupos tradicionalmente vulneráveis

Vamos então aos dados que levantamos. Talvez a descoberta mais relevante desse estudo diz respeito ao que os alunos que participaram do estudo relataram como os principais motivos que os levam a ser maltratados no campus. Uma das perguntas que fizemos aos participantes do estudo foi: “Com que frequência você é maltratado/a no campus por causa a) das suas opiniões políticas, b) das suas opiniões religiosas, c) do seu gênero, d) da sua classe social, e) da sua orientação sexual, e f) da sua cor/raça?” Como a figura abaixo mostra, alunos relatam ser maltratados por causa das suas opiniões políticas com mais frequência do que por qualquer outro motivo. 
 
Considerando nosso quadro atual de polarização política, esse dado não é particularmente surpreendente. Vale notar, no entanto, que o gráfico acima se refere ao total de respondentes. Embora os participantes do estudo em geral relatem maus-tratos em decorrência de opiniões políticas com maior frequência do que em razão de outros elementos do seu perfil, é de se esperar que isso varie significativamente de acordo com a identidade/posição que o aluno ocupa nas categorias levantadas pela pergunta. É razoável supor, por exemplo, que a frequência com que homens e mulheres relatam sofrer maus-tratos por causa do seu gênero varie significativamente, que a frequência com que alunos LGBTQ+ e alunos heterossexuais relatam sofrer maus-tratos por causa da sua orientação sexual varie significativamente, e assim por diante. Logo, embora a figura mostre que os maus-tratos por causa de opinião política sejam os mais frequentes entre o total de respondentes, não podemos afirmar que essa é a causa mais comum entre todos os grupos de alunos sem antes averiguar o quanto alunos pertencentes a grupos tradicionalmente vulneráveis relatam sofrer maus-tratos em decorrência do seu pertencimento a tais grupos. 
 
Quando dividimos os grupos da maneira sugerida acima, fizemos duas descobertas: uma esperada e outra surpreendente. A esperada é que, de fato, grupos tradicionalmente vulneráveis relatam sofrer maus-tratos em decorrência da sua vulnerabilidade com mais frequência do que grupos não-vulneráveis (i.e., mulheres relatam sofrer maus-tratos em decorrência do seu gênero com muito mais frequência do que homens, alunos LGBTQ+ relatam sofrer maus-tratos por causa da sua orientação sexual com mais frequência do que alunos heterossexuais e assim por diante). No entanto, como as figuras abaixo mostram, encontramos algo surpreendente: mulheres relatam sofrer maus-tratos em decorrência das suas opiniões políticas com maior frequência do que em decorrência do seu gênero; alunos LGBTQ+ relatam sofrer maus-tratos em decorrência das suas opiniões políticas com maior frequência do que em decorrência da sua orientação sexual; alunos de baixa renda relatam sofrer maus-tratos em decorrência das suas opiniões políticas com maior frequência do que em decorrência da sua classe social; e alunos não-brancos relatam sofrer maus-tratos em decorrência das suas opiniões políticas com maior frequência do que em decorrência da sua cor/raça.
 

 

O que esses dados sugerem é que embora certamente haja progresso a se fazer no combate ao preconceito de gênero, classe, orientação sexual e raça/cor, a intolerância política pode afetar negativamente o dia-a-dia dos alunos em grau igual ou maior do que essas outras formas de intolerância, mesmo entre grupos tradicionalmente vulneráveis ao preconceito de gênero, classe, orientação sexual e raça/cor. Resta então a pergunta: se temos hoje tanto esforço dentro das universidades para combater essas formas de preconceito mais ‘tradicionais’, o que falta para que se iniciem esforços semelhantes no combate à intolerância política? Nossos dados sugerem que intervenções institucionais e pedagógicas voltadas para a promoção da tolerância política poderiam receber respaldo e aceitação entre uma parcela significativa da comunidade acadêmica. 

 

 

Alunos se auto-censuram sobre questões políticas mais do que sobre qualquer outro assunto

Perguntamos aos alunos o quão confortáveis ou relutantes eles se sentiriam em falar abertamente e expressar suas opiniões sobre uma variedade de assuntos política e/ou culturalmente sensíveis (política, religião, raça, orientação sexual e gênero). Como a figura abaixo mostra, a política é, de longe, o assunto que mais gera relutância entre os alunos, com quase 40% dos respondentes afirmando que se sentem relutantes ou muito relutantes em participar de discussões sobre esse tópico em sala de aula.

 

Isso também não é particularmente surpreendente considerando os dados que já apresentei: se opiniões políticas são motivo de tanta tensão e maltrato entre alunos, é natural que eles se tornem relutantes em expressá-las. No entanto, embora tal autocensura possa proteger alunos contra represálias indesejáveis, ela também pode cobrar o seu preço. O aluno que se autocensura corre o risco de não desenvolver de maneira plena as capacidades de elaborar, explicitar e defender suas opiniões perante uma audiência crítica. Seus colegas, por sua vez, também são prejudicados, pois eles perdem a oportunidade de ouvir, dialogar e, se for o caso, contestar com competência argumentativa pontos de vista que diferem dos seus. Ao coibir oportunidades para que alunos aprendam a argumentar e discordar uns dos outros de maneira construtiva, a autocensura pode então coibir o desenvolvimento de competências básicas para a exploração intelectual, a deliberação coletiva, o raciocínio crítico, o inquérito científico e a convivência harmoniosa em uma sociedade democrática e plural. Dado o quanto nosso atual quadro de polarização carece de participantes críticos e competentes no debate público, a autocensura sobre assuntos políticos deve ser motivo de preocupação para instituições de ensino superior. 

 

 

Alunos têm mais medo de outros alunos do que dos professores

Um lugar-comum frequentemente difundido sobre o tema em questão é de que a responsabilidade pelo clima de expressão repressivo das universidades recai sobre professores “doutrinadores”. Embora certamente existam casos de fracasso pedagógico nessa área aos quais deveríamos estar atentos, nosso estudo sugere que professores não são os principais responsáveis pela autocensura entre alunos. Quando perguntamos aos alunos que se autocensuram quais as consequências que eles têm mais receio que aconteçam caso eles se expressassem abertamente suas opiniões, nota-se que represálias sociais vindas de outros alunos geram muito mais preocupação do que represálias vindas dos professores ou da administração da faculdade. 

 

 

Interpretação sobre o que constitui ‘maltrato’ varia significativamente entre conservadores e não-conservadores

Voltando à pergunta sobre as causas e a frequência de maus-tratos entre grupos diferentes, encontramos diferenças às vezes gritantes entre as respostas dadas por respondentes conservadores e não-conservadores. Em nenhum caso isso é tão claro quanto nas respostas dadas por mulheres conservadoras e não-conservadoras quando perguntamos a frequência com que elas são maltratadas por causa do seu gênero. Como a figura abaixo mostra, mulheres conservadoras relatam uma frequência extremamente baixa de maus-tratos quando comparadas a mulheres não-conservadoras.

Embora seja possível que mulheres conservadoras de fato sofram maus-tratos por causa do seu gênero com frequência menor que mulheres não conservadoras, uma hipótese mais plausível talvez seja a de que a diferença observada se dá principalmente por causa das várias interpretações que esses dois grupos de mulheres fazem da sua experiência no campus e do que constituem maus-tratos. Isso não seria de modo nenhum surpreendente considerando descobertas de outros estudos mostrando que membros de grupos tradicionalmente vulneráveis variam imensamente naquilo que consideram atos ou discursos ofensivos. Embora haja pouca margem para interpretação tratando-se de atos como agressão física ou injúrias explícitas e intencionais, existem atos para os quais um espectro mais amplo de interpretação se aplica. Nosso estudo presta suporte à tese de que orientação política dos sujeitos é um fator bastante relevante para se prever em qual polo do espectro interpretativo tais atos mais ambíguos cairão.

 
 

Conclusão

Como falei, esse é apenas um pequeno resumo de alguns dados relevantes que encontramos nesse estudo. Há muito mais no artigo original, onde também apontamos perguntas em aberto e direções futuras para pesquisas e intervenções. Em relação a essas direções futuras, também só caberá aqui um pequeno resumo:

Embora existam muitas ferramentas práticas que possam ser aplicadas no contexto pedagógico e institucional das nossas universidades para lidar com os problemas que esse estudo discute, talvez a medida mais urgente também seja algo que já falei: levantar dados, promover pesquisas, informar a discussão. Digo isso por alguns motivos. Primeiro porque, apesar de todo o interesse e alarde que rodeia o problema da polarização e da censura/autocensura dentro da universidade, nossas instituições de pesquisa não produziram praticamente nenhum estudo sistemático sobre esse assunto até hoje. Isso, para mim, é um escândalo. Não foram poucas as vezes em que, ao longo dos últimos anos, enquanto eu tentava promover essa discussão dentro do meio acadêmico, recebi respostas um tanto quanto céticas (para não dizer flagrantemente negacionistas). “Como você sabe que isso é um problema? Onde estão os dados?” Pois bem, já passou da hora de termos em mãos esses dados. Enquanto a universidade não os têm, a mensagem que ela transmite é que ela simplesmente não está interessada nesse assunto, e que provavelmente não fará nada para atenuar as várias dificuldades que a comunidade acadêmica experimenta em torno dele. 

Eu não tenho a menor dúvida que promover discussões informadas sobre esse assunto farão bem à nossa educação superior. Também não tenho dúvida de que instituições de ensino e pesquisa que promoverem essas discussões estarão sinalizando um diferencial cobiçado em meio a tantas universidades que ainda não estão preparadas para reconhecer o problema. Espero, enfim, que os métodos aplicados nesse estudo possam ser aprimorados e sua aplicação expandida de forma a auxiliar aqueles interessados em tornar a universidade um ambiente de maior liberdade e desenvolvimento intelectual e cívico.

Sobre a Biblioteca Prisma

Nossa coleção de artigos tem o intuito de informar e instigar discussões sobre como a polarização política se manifesta em ambientes diversos e os caminhos possíveis para evitar seus efeitos mais tóxicos. Buscamos trazer textos de autores brasileiros e internacionais que atuam nessa área de forma a disponibilizar seus insights para um público maior.

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