Comparações culturais entre Brasil e EUA: reflexões sobre a importação de tecnologias de despolarização

Desde que comecei a estudar os efeitos da polarização e do tribalismo político na educação superior, algumas coisas me saltaram aos olhos. Em primeiro lugar, apesar de tantas pessoas reconhecerem o problema, encontramos pouquíssimas iniciativas dentro das universidades brasileiras tentando tratar deste assunto. Isso chama atenção não somente por causa da relevância que o tema da polarização alcançou entre o público em geral, mas também em relação à oportunidade perdida nos campos da pesquisa e da pedagogia. Mapear e diagnosticar causas e efeitos da polarização poderiam render insights poderosos sobre a nossa realidade social. Ensinar aos nossos alunos como navegar ambientes polarizados certamente traria benefícios valiosos para a sua formação.

Em segundo lugar, na medida em que eu buscava aquilo de mais avançado que se produz sobre polarização ideológica na universidade, me chamou atenção a quantidade de estudos, conferências acadêmicas, workshops, organizações e iniciativas que existem nos EUA dedicadas à questão. A Heterodox Academy, Bridge USA e Braver Angels, só para mencionar algumas organizações de renome, contam com milhares de membros entre a comunidade acadêmica, oferecem bolsas, realizam conferências, promovem debates, disponibilizam ementas, planos pedagógicos e muitos outros instrumentos para alunos e professores universitários visando a superação de barreiras ideológicas para a colaboração intelectual.

Existe, portanto, uma diferença gritante entre Brasil e EUA em relação à dedicação que esse tema vem recebendo de pesquisadores e profissionais da educação. Faço essa observação não para idealizar a situação nos EUA – não tenham dúvida de que pra existirem tantas iniciativas desse tipo por lá, é porque eles também enfrentam problemas sérios nesse front. De qualquer maneira, é certo que poderíamos estar prestando muito mais atenção no trabalho que nossos colegas americanos estão fazendo, pois as lições que podemos tirar de lá são muitas.

Uma objeção comum para a ideia de tomar os gringos como modelo, no entanto, é o argumento das “particularidades culturais”: o Brasil é Brasil, os EUA são os EUA, e não adianta querer importar modelos particulares à cultura deles. Ora, não há como contestar que o Brasil e os EUA de fato são muito diferentes, e é claro que particularidades culturais devem sempre ser levadas em conta em qualquer tentativa de importação. No entanto, devemos ter cuidado para não usar esse argumento para impedir inovações que estão, de fato, em alta demanda aqui no Brasil também.

De qualquer maneira, devemos sim prestar atenção em particularidades culturais e posso observar pelo menos algumas que profissionais da educação deveriam levar em conta quando buscarem importar as ‘tecnologias de despolarização’ às quais estou me referindo. Uma delas ajuda a explicar por que as organizações americanas que mencionei acima contam com o apoio de professores e alunos tanto à esquerda quanto à direita, enquanto que as poucas iniciativas brasileiras buscando promover maior pluralidade ideológica na universidade brasileira são quase exclusivamente associadas à direita política e são pouquíssimos os acadêmicos de esquerda no Brasil que veem essa falta de pluralidade como um problema real.

Ao meu ver, o problema está de certa forma relacionado aos diferentes significados que a palavra ‘liberal’ adquire no Brasil e nos EUA. A explicação comum que escutamos em torno disso é que aquilo que os americanos chamam de ‘liberal‘ nós chamaríamos de ‘progressista’ ou ‘esquerdista’. Isso está correto em parte, mas há questões um pouco mais complexas que frequentemente escapam do nosso radar devido à conotação que nós damos à palavra.

Como sabemos, o liberal no sentido brasileiro é aquele que defende o livre mercado e… raramente algo mais que isso. Muitos inclusive têm a impressão de que o liberalismo é um movimento cujos defensores têm pouco a dizer sobre questões sociais fora do plano econômico. Esse é um dos motivos pelos quais, no Brasil, coalizões ditas liberais se veem assoladas por cisões aparentemente irresolvíveis sempre que algum assunto além da economia entra em pauta. É também um dos motivos pelos quais muitos brasileiros têm dificuldade em diferenciar o ‘projeto liberal’ de outros projetos políticos circulando hoje no país – em qualquer quesito que não seja economia, é claro.

Acontece, no entanto, que a tradição liberal fala sobre muitos outros assuntos além da economia, e, apesar das conotações que se associaram ao uso moderno da palavra tanto nos EUA quanto no Brasil, o coração dessa tradição está, ao meu ver, nos princípios que se referem à organização do mercado de ideias. É da tradição liberal que os americanos extraem, por exemplo,  a mais robusta e feroz defesa da liberdade de expressão que encontramos hoje no mundo. É nessa tradição que encontramos os argumentos mais bem formuladas para que opiniões discordantes, ofensivas, até mesmo desprezíveis e odiosas sejam não apenas toleradas mas valorizadas como combustível para o mercado de ideias. São argumentos contra-intuitivos à primeira vista, sem dúvida, mas que de todo modo estão inscritos no DNA do liberalismo e da cultura americana. São também muitos dos argumentos utilizados pelas organizações mencionadas acima para justificar sua existência.

Não caberá aqui entrar nos detalhes desses argumentos (faço isso em um pouco mais de detalhes aqui). Para os nossos propósitos, no entanto, vale observar que a esquerda americana – que, afinal, se refere a si mesma como liberal – cultiva muito mais apreço por esses argumentos do que a nossa esquerda. Enquanto lá um John Stuart Mill pode ser evocado entre a esquerda como membro de uma árvore genealógica em comum, aqui ele não vai descer tão redondo entre quem tem mais afinidade com Marcuse, Foucault, Bourdieu, Gramsci ou Marx do que qualquer autor liberal. Liberalismo, para a nossa esquerda, não é um ‘badge of honor’. Pelo contrário: é palavrão. Qualquer coisa que se associe a essa tradição certamente encontrará alguma resistência, mesmo quando esteja falando de um assunto que tenha pouco a ver com economia ou privatização.

A nossa direita, por outro lado, não é totalmente livre de culpa por essa situação. Nossos próprios liberais, como já mencionei, carecem de fluência em assuntos não-econômicos, e é raro encontrarmos algum deles munido de argumentos afiados a favor da liberdade de expressão e da pluralidade de pensamento. Nossos conservadores também parecem não ter tanta afinidade com esses argumentos, a ver pelo caráter das inciativas que eles desenvolveram para tentar promover maior diversidade ideológica nas universidades por aqui. Tais iniciativas dificilmente transmitem uma mensagem conciliatória de apelo inter-ideológico, e raramente encontramos nelas argumentos que se assemelhe ao ‘método liberal’ de organizar o mercado de ideias. Em suma, embora nossa esquerda não seja particularmente receptiva a esses argumentos, nossa direita mal sabe usá-los. Ambos os lados parecem enxergar o embate de correntes ideológicas na universidade como um jogo de soma zero, uma disputa a ser vencida ou perdida, e não como uma empreitada ao mesmo tempo competitiva e colaborativa e voltada para o aprimoramento mútuo de ideias conflitantes.

O que isso significa para o futuro das iniciativas de despolarização no Brasil? Estaríamos então condenados pela nossa cultura política a uma espiral contínua de tribalismo ideológico? Não necessariamente. Isso significa apenas que não serão movimentos fortemente identificados com correntes políticas determinadas a encabeçar essas iniciativas. Devemos lembrar que enquanto a polarização demonstra cada vez mais o seu caráter tóxico e improdutivo, cresce também o número de brasileiros que se veem como ideologicamente ‘desabrigados’, não se identificando com nenhum dos campos políticos hoje em destaque. Pessoas assim certamente têm dificuldades a mais para entrar no debate público: elas não têm tanto senso de coesão grupal e nem acesso aos slogans e respostas rápidas que grandes movimentos fornecem aos seus seguidores. Mas isso significa também que elas muitas vezes podem se investir em raciocínios e tomar posse de ferramentas que são inacessíveis a esses movimentos. Há, portanto, muita energia não aproveitada entre a maioria silenciosa que se espreme entre as tribos políticas da nossa era. Para mim é questão de tempo até que essas pessoas, tão frequentemente taxadas de ‘isentistas’ e acusados de não se preocuparem com as questões mais importantes do dia, comecem a fornecer soluções a alguns problemas que a política vem se mostrando incapaz de solucionar.

Apesar então de ter delineado aqui uma formidável barreira cultural para a importação de iniciativas despolarizadoras para a educação superior brasileira, posso tentar terminar essa reflexão em tom otimista. O ‘método liberal’ a que venho me referindo, apesar de leval ‘liberal’ no nome, não pertence a nenhum movimento em particular e pode ser apropriado por qualquer indivíduo, instituição ou comunidade nesse país que esteja interessada em tirar máximo proveito da pluralidade de perspectivas a que tem acesso. É um método que vem se justificando cada vez mais por vias empíricas, balizadas pelas ciências cognitivas e organizacionais. Embora tenha nascido da tradição liberal, não depende mais de argumentos políticos ou ideológicos. Embora encontra aceitação mais fácil em certas culturas, pode também contar com a recepção de espíritos racionais, pragmáticos e tolerantes de qualquer orientação política. Portanto, apesar das barreiras culturais, podemos esperar que iniciativas despolarizadoras prosperem em qualquer ambiente que adquira uma noção realista de meios adequados para fins desejáveis. Não há por que acreditar que, com um pouco de trabalho, isso não possa acontecer no Brasil também.