A subrepresentação ideológica na universidade é real

Em todo o tempo que passei na universidade, sempre tive a impressão de que a escassez de perspectivas de direita no campus é um fato incômodo e que mencioná-lo muitas vezes criava um clima desconfortável. É um tema discutido às escondidas, aos sussurros e nas sombras, quase nunca alcançando um debate aberto e honesto entre a comunidade acadêmica. Entre os motivos por essa atmosfera esquisita, podemos mencionar o fato de que a sub-representação exige explicações, e isso pode colocar a perspectiva “dominante” numa situação desconfortável.

Muitas vezes observei reações defensivas: para evitar acusações de mérito arbitrário, muitas vezes se tenta justificar a ausência de perspectivas conservadoras/liberais por conta de sua suposta inferioridade intelectual e moral. Para evitar acusações de perseguição e intolerância, muitas vezes se nega o problema e se diz que na verdade há, sim, espaço para todas as perspectivas no campus – ou seja, que na verdade não existe sub-representação da direita coisa nenhuma.

Durante meu tempo investigando esse problema, vim a perceber que os motivos para a sub-representação da direita no campus são extremamente complexos e dão margem para uma longa e interessantíssima discussão sobre fatores causais e quais as abordagens práticas mais adequadas. Em se tratando de um problema social complexo, isso era de se esperar. O que eu não esperava, no entanto, era ter que passar tanto tempo tentando convencer pessoas do meio acadêmico de que pessoas e perspectivas de direita são, de fato, sub-representadas na universidade.

A negação daquilo que eu considerava auto-evidente muitas vezes viria sob o pretexto de críticas metodológicas: “Que dados você coletou e que métodos você empregou para chegar a essa conclusão?” Só porque essas perguntas eram muitas vezes motivadas por impulsos defensivos não quer dizer que eles foram inúteis. Longe disso. Uma característica interessante do meio acadêmico é que, idealmente, você é obrigado a ter respostas satisfatórias para as perguntas que as pessoas fazem. Mesmo quando essas perguntas parecem insensatas, basta uma pequena reformulação para render um projeto de pesquisa interessante. Além do mais, quando você está tratando de um tema polêmico onde há diversos incentivos para o negacionismo, radicalismo e polarização, não recomendável tomar nada como auto-evidente.

Uma dificuldade enfrentada por qualquer pessoa discutindo a sub-representação da direita na universidade brasileira, no entanto, é o fato de que aqui não se realizou nenhuma pesquisa acadêmica formal sobre o assunto até hoje. Fornecer ‘provas’ do tipo que normalmente convence as pessoas na forma de números, gráficos e tabelas, portanto, é difícil. A situação é bastante diferente nos EUA, onde o perfil político do meio acadêmico é objeto de investigação científica há décadas. Lá, portanto, já existe certo consenso científico sobre o assunto: sim, a direita é sub-representada no meio acadêmico. Faço um apanhado mais detalhado dos métodos utilizados nessas pesquisas americanas aqui, mas algumas das questões mais comuns valem ser abordadas.

Primeiro, uma das réplicas mais frequentes quando se afirma que a direita é subrepresentada no meio acadêmico: “mas o que você quer dizer com ‘direita’?” A questão de como definir esquerda e direita é uma das mais pantanosas do meio acadêmico e vejo colegas atolados nela o tempo todo. No que diz respeito às pesquisas que estou me referindo aqui, a resposta é, na maior parte das vezes, bem simples: autodeclaração. Em outras palavras, é considerado de direita o sujeito que se declara de direita. Não é uma resposta muito elaborada, não nos diz muito sobre o que essas pessoas pensam, como agem, onde vivem, o que comem e etc., mas é o suficiente para dar uma noção inicial da distribuição de perfis políticos entre uma população.

Em se tratando de autodeclaração, portanto, cerca de 9% se dos professores universitários americanos se declaram de direita. Quando falamos especificamente das áreas das ciências sociais e humanas, essa porcentagem cai para 5%. Diversos surveys foram realizados e resultados ligeiramente diferentes foram obtidos, mas no geral o consenso gira em torno desse número.

Quando falamos de representatividade, no entanto, é necessário comparar esses números à proporção que encontramos entre a população em geral. Se a proporção de um grupo entre o meio acadêmico = a, e a proporção desse mesmo grupo entre a população em geral = b, podemos calcular o coeficiente de representação desse grupo através da fórmula C = a / b.

O sociólogo Musa Al-Gharbi fornece uma comparação desse coeficiente entre diversos grupos, que reproduzo aqui:

Uma representação gráfica dos diversos coeficientes de representação dá uma ideia de como a representatividade de pessoas de direita se compara à representatividade de outros grupos entre o corpo docente das ciências sociais e humanas na universidade americana:

Outro gráfico ilustrativo vem da pesquisa realizada por Mitchell Langbert da Brooklyn College. Langbert compara o número de democratas registrados para cada republicano registrado nas 50 universidades mais bem avaliadas dos EUA. Esse foi o resultado obtido, por disciplina:

É claro que esses dados, por si só, não nos dão o quadro completo da situação. Pesquisas qualitativas como as realizadas por Jon Shields e Joshua Dunn ou por Amy Binder e Kate Wood, por exemplo, trazem um olhar mais etnográfico para o problema e dão mais detalhes de como identidades políticas são formadas e negociadas dentro da universidade americana. Outras pesquisas buscam determinar também quais as ideias que recebem mais ou menos espaço devida a sub-representação da direita em áreas como a sociologia, filosofia, direito e psicologia social. Olhadas em conjuntos, creio que essas pesquisas são de imenso valor e apontam caminhos promissores para melhorar a qualidade do ensino e pesquisa da educação superior, assim como para tornar a universidade um ambiente mais tolerante para visões de mundo diversas.

Sejam quais forem os motivos para a sub-representação da direita no meio acadêmico, resta pouca dúvida então de que tal sub-representação existe. Seria bom que no Brasil tivéssemos as montanhas de dados que os nossos colegas americanos têm para analisar a questão, mas há indícios o suficiente de que a situação é muito parecida, se não pior. Se não temos gráficos e tabelas, temos relatos abundantes de pessoas dentro e fora da universidade que sustentam o senso comum amplamente difundido de que a universidade brasileira pende dramaticamente para a esquerda, principalmente nos departamentos de ciências sociais e humanas. Se considerarmos o plural de ‘relato’ como um sinônimo para ‘dados’, arrisco dizer que, mesmo na ausência de estudos formais, esse senso comum está correto.

Talvez não faltem dados para corroborar essa conclusão, mas espelhar as pesquisas realizadas nos EUA certamente traria benefícios. Para começar, ajudaria a combater o negacionismo nessa área ao fornecer dados mais objetivos sobre o assunto. Ajudaria também a informar iniciativas dedicadas à promoção da diversidade ideológica na universidade brasileira, muitas das quais estão hoje atabalhoadamente atirando no escuro. Mais importante do que isso, tais pesquisas forneceriam dados para traçar um perfil mais detalhado da nossa educação superior, algo que qualquer um que se importa em aprimorá-la deveria se interessar.

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